segunda-feira, 10 de abril de 2017

A "Lagoa Comprida"


Tendo-me em seus braços, e residindo eu no mesmo bairro (papicu, que significa lagoa comprida) desde o meu nascimento, Fortaleza é  para mim, como um colo de mãe. Um lugar  que, não importa como estamos com nossas vidas ou de onde viemos,faz questão de estar sempre acolhendo, mesmo nos pequenos gestos (como frases de amor espalhadas pela cidade).
Andando por suas ruas (e/ou bairros), e me perdendo em muitas também,vejo o quanto esta cidade tem história para contar em cada uma delas, e por que não me sentir parte disso? Fortaleza seduz aos olhos com suas cores e com lugares que, até mesmo nos pontos turísticos, me encantam como se fosse a primeira vez e que carregam consigo tantas lembranças quanto um álbum de família. Claro, hipócrita seria se continuasse a falar apenas do belo, Fortaleza tem sim muito a corrigir e atualizar-se. Mas vê-se uma população e seus responsáveis lutando dia a dia para torna-la melhor.
Por fim, justamente por não ter percorrido tudo que Fortaleza tem a mostrar e por saber que ainda tem muito a ser percorrido neste grande lar, como um aventureiro, me faço disposto a querer desvendá-la. E mesmo quando crer que esse lar se tornará rotina, continuarei a procurar algo que novo que volte a mim, um olhar de quem vê pela primeira vez.

-Davi Saraiva
Foto tirada do celular

Fortaleza e suas faces

Foto tirada pelo celular.
Fortaleza pra mim tem várias faces, que foram se revelando conforme eu crescia e melhor a conhecia. Comecei a ter minha percepção de cidade como uma com identidade ambígua, pois até hoje tenho dúvidas se devo chamar meu bairro de Parque Dois Irmãos ou de Planalto Itaperi, sendo um o nome oficial e o outro o nome utilizado de verdade, na boca do povo ou nomes de comércios locais, logo quando preciso anotar meu endereço, para garantir, coloco ambos.
Foi essa identidade controversa que logo tornou uma infância brincando na rua, onde aproveitei muito com as outras crianças, em uma logo descoberta de uma nova face da cidade, que seria o medo. Aos sete anos estava brincando no quintal, quando um garoto encostou na grade de minha casa, pedindo para brincar com a lupa que eu estava na mão, ao emprestar, ele saiu correndo, e foi nesse dia que descobri que meu bairro era um lugar perigoso. Hoje no lugar das grades há muros.

Hoje permeio entre os espaços urbanos conhecendo os locais seguros e os não, tentando aproveitar as pequenas liberdades que a cidade promove, sendo elas a maioria de caráter não planejadas ou intencionais. E apesar de ainda ter que olhar para os dois lados toda vez que preciso abrir a porta, vejo como minha realidade é apenas uma parcela das possibilidades da cidade.

por Lucas Esmeraldo

Fortaleza e Eu

Foto: Captura de tela do Google Maps.
Fortaleza representa para mim um sentimento de estar em casa. Eu sei, é clichê descrevê-la assim, mas não poderia ser diferente. Afinal, a vida toda morei aqui, na mesma casa, no mesmo bairro. Minha relação com a cidade é limitada à “bolha territorial” na qual estou inserido. Escola, curso de inglês, faculdade, trabalho... Tudo acabou se concentrando em uma mesma região da cidade, por isso sinto que a “minha Fortaleza” é menor.

Meu contato com outros bairros é sempre resultado de alguma atividade, seja uma festa, seja um passeio qualquer, ou até mesmo uma saída fotográfica, hobby do qual gosto muito. Este hobby me permitiu explorar um pouco mais a cidade, andar por lugares que não andaria normalmente. Mesmo assim, ainda sinto que conheço muito pouco de Fortaleza. Vez ou outra me perco pelas ruas e quem me socorre é o velho e bom GPS. Nesses momentos, a impressão que tenho é que ao sair da minha “bolha” me torno um turista na minha própria cidade.

No fim das contas, para mim, Fortaleza é como aquela pessoa com a qual você convive todos os dias, mas que não conhece tão bem quanto poderia conhecer. Quem sabe um dia isso mude, e eu possa fortalecer os lanços com a cidade, entende-la melhor e aproveitar mais do que ela pode me oferecer.

Por Germano R.

Minha moradia


FOTO : Fernanda Kelly

 Apesar de morar na cidade de Caucaia eu nasci e cresci em fortaleza e ela ainda vive em mim. Lugar de diversidade, cores e vibes positivas, Fortaleza é essa mistura que a gente faz, um pouquinho dali e outro daqui fazem desse lugar um local mágico.
 
Cheia de frases e mensagens por onde passa Fortaleza se comunica com seus moradores, ela entende cada um, e mesmo com tantos buracos feitos nela, ela ainda resiste, ainda amanhece linda, ainda abraça o povo, com sua gentileza, com todo seu amor que oferece.
 
Fortaleza para mim é lugar de se viver, de ser livre, e mesmo não morando nela, ela mora em mim, faz moradia todo dia, por onde eu passar, por cada frase lida nas paredes, por cada manifestação exposta no Benfica, pela exposição de arte de rua no dragão do mar, por cada arte de dança, na música regional, no artesanato.

A minha Fortaleza é amor, é forte, é resistente, é a força de mostrar que ainda tem muita coisa boa a ser descoberta. 

Texto por: Fernanda Kelly da Silva Oliveira. 

Minhas casas



Foto: "Eva" Acidum Project



   Minha cidade de Fortaleza é de cantos tão exóticos, pois eu nunca fiquei parado em um só canto aqui.
   Minha infância bom, a doce, ou particularmente falando, um pouco amarga, foi concebida no Conjunto Ceará, um bairro tão grande, mas tão pequeno ao mesmo tempo. As pessoas se encontravam e desencontravam, amavam e odiavam em cada rua que era passada. Era (não vivo mais lá) um bairro onde as pessoas se comunicavam, eu sentia como se fosse um pequeno interior dentro de uma capital.
 A avenida central e o polo eram o ponto de encontro das pessoas, se elas já se conheciam por ruas, lá era quase um casamento com várias pessoas do mesmo bairro. Bom, eu diria que o Conjunto Ceará era uma casa grande com a sua família que viviam todos os dias juntos.
    Me mudei de lá e me encontrei em outro bairro, o Antônio Bezerra, que diria que era um pouco diferente do antigo que eu morava. Eu não senti um acolhimento ou uma raiva pelas pessoas, mas não me senti inserido, até hoje, não completamente.
Acredito que o que pesou muito foi o meu crescimento dentro do meu atual apartamento, com o bairro (adolescente é um fogo sem fim...) eram aquelas velhas crises existenciais que um(a) jovem passa pela vida, então infelizmente, não tive total contato com meu atual bairro nesse tempo. Porém, de acordo com que ia crescendo, eu comecei a enxergar como o Antônio Bezerra é rico de diversidade de pessoas, eu nunca imaginei que ali competiria com o Benfica, em questões de diversidade de pessoas, eram vários "Andersons" adolescente encontrados em um local só. Aqui não irei abranger, por completo o bairro, mas sim minha rua, que é estranho, pois eu nunca vi cantos ficar aberto depois da 22:00 e ainda se sentirem felizes, detalhe importante: abertos no dia da semana. Aos poucos, me senti bastante acolhido, por mais que não trocasse apenas pequenas palavras como "bom dia", "boa noite", "como você vai?", pois eu vi ali que as pessoas (por sua diversidade), não faria um bastante mal. Esse parágrafo me lembrou um tanto de quantas vezes já cheguei tarde em casa e vi pessoas na rua conversando.
   Esse terceiro bairro, é onde eu moro todas as sextas-feiras, praticamente, eis aqui o famoso Benfica. Não sei como posso descrevê-lo de tão maravilhoso e tão acolhedor o bairro é. Até chegar aos meus 18 anos, eu não entendia a importância dele, para amigos mais velhos que estudam na UFC, mas depois que passei pela minha transição de menor para pessoa maior e "responsável", passei a conviver bastante com a sintonia do bairro. Eu imagino, o Benfica como uma música perfeita para os ouvidos, pois ali encontramos a melodia nos cantos da UFC, bares e até mesmo o shopping, e as rimas são as pessoas, pois são várias e cada uma possuem um significado importante para representar o que quer passar através dos ouvidos. Eu até faria uma música, se eu soubesse ao menos compor ou tocar um violão, até porque cantar, mesmo sendo ruim, a gente expressa o que sente. 
   Por fim, eu diria que é a minha casa (como pode ver eu possuo várias propriedades), o campus do Pici/Unifor, pego esse ônibus todos os dias e eu não sei explicar exatamente, como eu me sinto vivendo dentro deles todos dias, as vezes é solitário, pelas pessoas não se comunicarem e às vezes solidário, de ajudar aquelas pessoas com bolsas enormes que carregam para seus trabalhos e faculdades. Acredito que uma das maiores qualidades daqui é o Wi-fi (me desculpe a superficialidade da coisa, mas é uma verdade), porém a maior de todas a qualidade daqui, é quanto de lugares que eu conheço por Fortaleza, e conheço todos os dias, pois a cada olhar é uma descoberta nova. Desde o Pici, até Unifor, vivo uma euforia silenciosa e interna com os meus fones, meus olhos atento às pessoas que se encontram e aos lugares que eu conheço todos os dias. É lindo, é estranho e ao mesmo tempo puro.
   Diante dessa minha mediação sobre os cantos da minha vida em Fortaleza, a única coisa que eu tenho a expressar por fim é que essa cidade é um pequeno tão grande diante dos seus detalhes, é igual e tão diferente nas suas pessoas, nos seus olhares, aqui é encontrado tudo para você e desacreditado ao mesmo tempo, é um mar de emoções intensas e únicas pela sua cultura tão afetante. Minha Fortaleza é poderosa pela nossa força e carismática pelo nosso amor que aqui é encontrada sempre a luz mesmo quando estiver "avechado". 

Texto por: Anderson Cavalcante Pires

PELO BURACO DO POSTE


FOTO: Eduardo Trovão

     É como se ela tivesse apenas cinco anos; pelo menos pra mim. É como se ainda tivesse muito mais a ser explorada, como se ainda tivesse espaço pra crescer além de um buraco no poste. Não deixa de ser verdade, afinal, quem caminha pelas ruas dela vê construções que entregam o crescimento real e físico da cidade. Mas não é ela que tem cinco anos. Eu tenho; pelo menos para ela. Fortaleza vai completar 291 anos no próximo dia 13 de abril. Eu é que ainda tenho que descobrir lugares, ruas e pessoa que estão aqui desde antes do meu nascimento. Faz cinco anos que me tornei mais forte ao trocar o Rio de Janeiro por Fortaleza.
     A foto é da fachada do estádio Presidente Vargas, no benfica, feita em 2011. Nesse época eu ainda não era nascido. Não aqui. Nasci um ano depois. Não tive tempo de crescer para poder ser grande. Esse buraco no poste virou um rombo em poucos dias - não no poste, esse continua intacto cinco anos depois -, mas sem que se tornasse um estrago, apenas um mar de oportunidades. Vindo de lá para cá recebi olhares esperançosos, como se as pessoas me qualificassem pelo simples fato de ter tido uma vida anterior a essa, vivida no sudeste brasileiro. Não, isso não existe. Recebi olhares - e ainda recebo - duvidosos, de pessoas que insistem em ter a certeza que vir de lá pra cá foi uma tática pensada, uma forma de impor uma sabedoria supostamente maior pelo simples fato de ter tido uma vida anterior a essa, vivida no sudeste brasileiro. Não, isso não existe.
     Cinco anos, na verdade, temos nós. Nossa relação. Meu olhar pra essa cidade ainda é de criança e vice-versa. Assim a gente se ajuda e se atrapalha. Assim percebe e é percebido; bebe o caos presente em qualquer cidade grande, de qualquer capital, mas não tem ressaca. Quase não fica tonto. Incrível como Fortaleza pode ser calma, serena, silenciosa, vazia, tranquila e capital. E perigosa. E barulhenta. E fraca. E uma fortaleza. Muito além da luz de um poste, aqui a cidade que é luz. Aqui se vê de tudo, muito além de um buraco no poste.

domingo, 9 de abril de 2017

Fortaleza que fazemos


                                                  Foto: Google - Beira mar de Fortaleza

  Admito que não é tão simples dizer com palavras precisas ou com definições absolutas quem é a minha Fortaleza. Essa cidade, que tanto muda e só se transforma acaba, todos os dias, tendo um significado diferente pra mim. Nada é como antes e tudo passa a ter um novo sentido. Novas pessoas, novas oportunidades, novos começos e novos fins.

   Esse lugar, que é tão lindo, tão iluminado, tão acolhedor, me traz sim a esperança de um dia poder viver dias melhores . O potencial que cada pessoa traz consigo, a vontade por mudanças, o querer fazer, o abraço amigo, o amparo obtido... tudo isso me faz acreditar que novas coisas estão por vir. Meu olhar com expectativa alimenta minha fé de que poderemos, todos nós, vivenciarmos o respeito e a reciprocidade. Sei que somos capazes disso.

   Não gosto da palavra utopia porque ela nos distancia das coisas, de sonhos. Prefiro sempre pensar no lado bom das coisas, por isso não podia ser diferente com o lugar no qual vivemos. Sei que nada acontece do dia pra noite, claro, mas acredito no processo, na sede por mudança. Ainda há possibilidades pra Fortaleza. Acredite nisso.

Por: Ivna Nunes

A muralha

                                                                      Foto: José Mesquita

Fortaleza se ergue para mim em 1991, na Cidade dos funcionários, um bairro residencial, que tinha como seu principal atrativo o Lago Jacarey. Era considerado um local pacato, mas logo descobrimos que nossa fortaleza não era tão segura assim. Após uma invasão e furto de pertences da nossa morada, demos início a uma diáspora para outro território da capital, este com muros mais altos e fortificados.
Há 20 anos fincamos nossas raízes em mais um bairro que julgávamos ser pacato, mas acho que poderíamos vagar tanto quanto os hebreus em busca da terra prometida e jamais iríamos encontrar, a desigualdade não permite, nós com nossos muros altos, fortalezas dentro de Fortaleza não permitimos. Pois bem, nosso novo velho lar se chama Guararapes, ou não, acho que decidiram homenagear um grande empresário e decidiram mudar o nome do bairro, homenagem essa que faz sentido, uma vez que o bairro está em um processo de verticalização que faria inveja as cidades medievais com seus muros protetores. Outra ironia do destino é a nossa orla, que também recebeu um vasta muralha em sua “área nobre”, acho que as empreiteiras quiseram homenagear o forte que deu origem a capital cearense e acabaram se empolgando demais, impedindo até o vento de passar, isso, até ele foi barrado.
Não lembro de muitas brincadeiras nas ruas quando mais novo, isso só era mais praticado nas viagens para o interior. Hoje sair para andar na rua e voltar inteiro é um ato que muitos comemoram. Triste. Se a desigualdade já impera na fortaleza, os muros altos só contribuem mais e mais para o seu aumento, aqui os espaços fechados são abertos e os espaços abertos são fechados. Temos que ocupar.

Por: Italo Oliveira

É Quente

Sair de casa à tarde é sempre uma tormenta. Peço carona à minha mãe e ela diz: Tu vai sair nesse sol? A vida de estudante é osso. Ás 15:34, já dentro do ônibus, o termômetro marca 30°C. "30°C com sensação de 50 nesse inferno, se pelo menos eu tivesse um carro... Não dá pra manter dois carros com a gasolina custando quase quatro reais. Vai de busão sim!"
Pegar ônibus nessa cidade tem seus charmes, mais ainda quando você consegue um lugar no lado da janela. Ver as paredes pichadas, as calçadas quebradas, cheias de mato e enfeitadas de lixo espalhado. Ah, tudo isso é tão bucólico! Só que não. A vida aqui não é só praia e sombra. Fortaleza não gira em torno das sereias da Praia de Iracema nem dos boêmios do circuito Dragão-Passeio Público.
Bem vindos à terra de poeta que vive e morre nas ruas, dos terminais da Messejana, Lagoa, Siqueira e Parangaba, da interminável construção do metrô; a terra da Dandara, do roubo ao Banco Central e dos prédios antigos que serão derrubados para dar lugar a arranha-céus. Fortaleza é linda, é só prestar atenção.

Por Tayane Matos



Foto: Tayane Matos

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Eu me faço Fortaleza.



O Barba Azul - Poço da Draga - Havaizinho. (Ponte)
Foto: Bárbara Soares.
  Eu viajo, em espaços, eu me perco, eu me acho. Nas ruas, nas calçadas, nas vias, nas esquinas, praças, praias, nas pontes, nos morros, nos extremos, no centro. De ônibus, a pé, de carro, de bike, na garupa. Observando, devaneando, fotografando, cantarolando, conversando, escutando. Fortaleza acaba deixando de ser apenas um espaço arquitetônico, social, cultural, vai além.
     Ocupar faz parte do meu vocabulário desde que me dei conta que a cidade abriga ao mesmo tempo que me domina, em forma de pessoas, de sistema, de informação ou solidão. O ocupar contradiz, mas se faz por perto, com afeto, coletividade, amor, preenchimento, ação e reação. Fazer parte da cidade assim como ela faz parte de mim. Ser cidade. Fugir da rotina combina com a brisa de Fortaleza, estimula o novo observável aos olhos, mas que traduzindo em corpos, os sentimentos acabam tomando conta de acordo com que as vivências tomam conta também.      
      Há horas que me sinto acolhida, há horas me acalento, há horas que a marginalização do todo capital me faz sofrer junto e sinto a vontade de cuidar como mãe. Fortaleza é mãe, como uma boa mãe, com seus anjos e demônios, com suas fúrias ou luzes radiantes e reluzentes, se transforma à medida em que me transformo. Eu faço Fortaleza e Fortaleza me faz, e refaz, constrói e desconstrói, todos os dias, mutável.


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