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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Terminal e o conceito de não-lugar


O longa, de 2004, dirigido por Steven Spielberg, retrata de forma irreverente e, ao mesmo tempo, dramática a passagem de um cidadão do país fictício Krakozhia, interpretado brilhantemente por Tom Hanks.


No aeroporto de Nova York, Viktor Navorski tem seu visto de entrada nos Estados Unidos negado, pois seu país sofre um golpe. Assim, ele se vê preso no terminal do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, sem permissão para voltar ao seu país de origem, nem pôr os pés em solo americano.

Neste terminal, Viktor Navorski passa os próximos nove meses. Sabendo apenas algumas palavras em inglês, o personagem vai se adaptando a essa nova situação. Lá ele encontra amigos, um emprego e até a bela comissária de bordo Amelia Warren, interpretada por Catherine Zeta-Jones, com quem ele tem um caso amoroso.

Este filme ilustra claramente a ideia de não-lugar, proposta por Marc Augè, onde um lugar de passagem passa a ser um lugar com alguma identidade pessoal. Em "O Terminal", o personagem cria vínculos, consegue emprego e constrói seu mundo em um espaço não convencional.

O mais interessante na narrativa é que o autor retratou o conceito e sociedade atual, a supermodernidade, com características marcantes baseadas, principalmente, no excesso: "excesso de acontecimentos, de espaço e de individualismo", onde os lugares que deveríamos apenas passar, tomam conta de boa parte do nosso dia.

É certo que o caso de Viktor Navorski é completamente inusitado, porém, em um dos diálogos do filme, a comissária de bordo Amelia Warren também se vê nesta posição de que o aeroporto é seu lar, seu lugar.

É o não-lugar mudando sua forma. E de que forma o não-lugar está presente no nosso dia-a-dia? Ora, passamos mais tempos nos engarrafamentos do que no destino. Mais tempo no trabalho do que em casa. E as ruas, não-lugares por excelência, passam a fazer parte da nossa vida.






Curiosidade:

O filme "O Terminal" parece ter sido inspirado na história real de Merhan Karimi Nasseri. Um refugiado iraniano que viveu no Terminal 1 do Aeroporto Charles de Gaulle, perto de Paris, de 1988 a 2006.

Por ter participado dos movimentos ingleses a favor da retirada do poder do xá iraniano Mohammed Reza Pahlavi em março de 1974, foi perseguido e torturado no Irã em 7 de agosto de 1975 pela polícia secreta iraniana SAVAK.

Após conseguir escapar do país, fugiu para a Europa, mas ao fazer escala em Paris, perdeu seus documentos e teve de ficar retido na área de espera do aeroporto, onde viveu até Julho de 2006 por razões legais.

Não há nenhum relato oficial de que o filme tenha sido realmente inspirado nesta história, porém, é muito curioso que alguém possa viver dentro de um aeroporto durante tanto tempo.

Encontrando um não-lugar em “O Terminal”


- Aonde você mora?
- Aqui, no aeroporto.
- Engraçado, passo tantas vezes por aqui que tenho essa mesma sensação.

O diálogo transcrito acima do filme “O Terminal” é a base de todo o debate sobre o conceito de não-lugar. A conversa entre Viktor Navorski (Tom Hanks) e Amélia Warren (Catherine Zeta-Jones ) expressa a realidade vivida por Viktor, preso no aeroporto impossibilitado de sair do aeroporto pois não tem o visto para entrar no Estados Unidos e Amélia uma aeromoça que viaja por vários países a trabalho.

O conceito de não-lugar mostrado no filme nos remete a imaginarmos outros não-lugares do nosso dia-a-dia. Aeroportos, lojas, terminais de ônibus e até mesmo nossa casa, podem ser um não-lugar quando analisada a rotina do indivíduo.

Em uma sociedade onde as pessoas tem o tempo diário totalmente preenchido é mais do que normal, simplesmente “passar” por lugares. Esses ambientes visitados acabam passando de forma despercebida.

A normalidade de simplesmente passar sem notar ou ser notado em determinados lugares tem gerado cada vez mais um afastamento das pessoas com os lugares que elas convivem. Não perceber paisagens ao redor ou pouco notar as pessoas que trabalham nesses lugares são exemplos disso.

E a relação com as outras pessoas? E o interesse de se conhecer um pouco mais sobre o locais não-lugares? Isso tem se tornado pouco importante, porque não podemos parar nossos afazeres diários para buscar um conhecimento além do que nos é repassado.

Com essa ideia e com uma visão de sociedade cada vez mais limitada, os indivíduos vão mergulhando em um individualismo sem precedente e sem interesse algum de tentar melhorar o que está ao nosso redor.


João Bandeira Neto
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