quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A Origem: O Real e o Virtual



Dentro do filme de Christopher Nolan somos cercados pelas mudanças constantes entre as "realidades" dos personagens, que passam de sonho para mundo atual frequentemente. Os conceitos de "atual" e "virtual" de Pierre Levy são vistos em praticamente todas as cenas, onde fica, inclusive, difícil ou talvez subjetivo, saber onde se aplicam os atuais e virtuais e seus processos de transformação (atualização e virtualização).

O atual é visto por Levy como a "realidade", aquilo que fisicamente existe, está presente no nosso meio em matéria e pode ser tocado. Enquanto isso, o virtual seria aquilo que não se pode tocar, está vivo apenas em nossas mentes. São ideias, sentimentos, vontades, coisas as quais sabemos que existem, porém não podemos ver e às vezes nem mesmo expressar do modo como imaginamos. Baseado nesses conceitos, Levy defende, então, que o 'virtual' não é o contrário do 'real', mas está contido dentro dele.

Os processos de atualização e virtualização citados anteriormente são os momentos de passagem de virtual para atual e vice-versa. A atualização torna a ideia uma realidade física, enquanto a virtualização é a "problematização" da matéria pronta, o momento de dúvida ou o surgimento da ideia de que aquilo pode ser transformado em algo ainda melhor.

Em "A Origem", até por ser um filme que trata de sonhos e ideias, são diversos os momentos em que nos deparamos com a prática dos conceitos de Levy, mas uma das cenas que chama bastante atenção e exemplifica bem os quatro conceitos vistos juntos é o momento em que Cobb (Leonardo DiCaprio) passeia com Ariadne (Ellen Page) pelas ruas de uma cidade imaginária de um sonho dela, tentando convencê-la a unir-se à sua equipe.

O "virtual" aparece quando a arquiteta se pergunta o que acontece quando se altera a física dos ambientes dos sonhos. É a ideia inicial. Aquilo que ainda não existe, porém é imaginado por ela. Seguindo esse momento, aparece a "atualização", que ocorre quando ela, com sua mente, transforma as ruas da cidade imaginária, deixando-as da maneira que quer.

Terminado esse processo, a cidade está modificada: os prédios estão uns em cima dos outros, o céu é outra parte da cidade. Isso é o atual acontecendo novamente. A ideia da mudança física do local está concretizada, logo, a ideia virtual passou a ser uma atualidade.

Logo em seguida, porém, começam a aparecer problemas com as mudanças. As pessoas projetadas pelo subconsciente de Cobb começam a atacar Ariadne por conta das mudanças no ambiente; a ideia já não parece tão favorável. É um processo de virtualização, onde ela tem de começar a pensar em maneiras de não chamar atenção das projeções. Outra virtualização clara percebida na cena seguinte é que, ao projetar um lugar já existente, Cobb explica a Ariadne os perigos de tal situação; que o subconsciente pode confundir-se e perder-se dentro do sonho, pensando que está vivendo uma realidade. São os problemas que surgem após as "soluções" dadas, que já não são tão soluções assim...

De modo geral, o filme é inundado dos virtuais e atuais, de modo até que os conceitos se misturam; o que não é tão diferente assim da vida "real". A realidade é que não sabemos tão bem o que pode virar "realidade".



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